quarta-feira, 29 de junho de 2011

Entrevista que dei à Folha Dirigida (28/06/2011): Na norma culta, uma das faces da Língua Portuguesa

Entrevista que dei ao jornal Folha Dirigida do RJ, publicada em 28/06.
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Alessandra Bizoni (alessandra.bizoni@folhadirigida.com.br)
A polêmica em torno do livro "Por uma vida melhor", da Coleção Aprender, Viver, distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) a quase 500 mil estudantes está longe de chegar ao fim. Desta vez, quem ingressa no debate público é Núbia Nascimento, graduada em Letras (Português/Inglês) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Letras (Inglês), que se uniu ao coro dos defensores das orientações presentes no livro didático mais discutido dos últimos tempos.
Pesquisadora nas áreas de Linguística Aplicada, Análise do Discurso e Ensino de Língua Estrangeira, a educadora defende o reconhecimento da variação linguística pelos livros didáticos, salientando a pertinência do uso pedagógico deste aspecto para o ensino da norma padrão da língua, como prefere classificar, ou da "norma culta", como preferem estudiosos mais tradicionais.
Em sua análise, ressalta Núbia Nascimento, apesar dos pertinentes argumentos dos autores do livro e dos linguistas, interesses políticos alimentam os ataques feitos à obra e a metodologias de ensino baseadas na abordagem das variações linguísticas.
E foi justamente ao acompanhar o debate público em torno do ensino de Língua Portuguesa que a professora de Inglês teve contato com a entrevista do professor Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, e também com o Especial Debates "Livros didáticos: uma polêmica alimentada por erros e acertos", ambos publicados pela FOLHA DIRIGIDA recentemente.
Com forte embasamento teórico e adotando a postura de contribuir para o aprofundamento das discussões e para o esclarecimento do público leigo, a educadora aproveitou o espaço aberto pela FOLHA DIRIGIDA para a discussão em torno da entrevista do professor Marcos Bagno — o primeiro especialista a defender publicamente o livro didático "Por uma vida melhor" — e apontou caminhos ainda inexplorados no debate, como conceituação da variação linguística, implicações ideológicas na escolha de métodos de ensino, formação docente e prática pedagógica no ensino de língua materna.
Ao revelar suas convicções para FOLHA DIRIGIDA, Núbia Nascimento fez questão de indicar referências bibliográficas e endereços eletrônicos de vídeos de especialistas. As indicações estão disponíveis na FOLHA DIRIGIDA ONLINE.
Aberta ao diálogo com pesquisadores e docentes, a FOLHA DIRIGIDA convida o magistério a seguir o exemplo da professora de São Paulo e colaborar com Caderno de Educação, no sentido de estreitar o diálogo entre aqueles que vivenciam o cotidiano escolar, pesquisadores da academia e membros da comunidade educacional. Eis as ideias da professora Nubia Nascimento:
O que é variação linguística e por que esse enfoque deve ser levado para as salas de aula?
Nubia Nascimento
 - Há quase duas décadas, um aluno que entra no curso de Letras, principalmente nas universidades mais conceituadas, tem como um de seus primeiros objetos de estudo a variação linguística. A variação linguística consiste na realidade de que uma língua, qualquer que seja, não é homogênea, pois a língua varia de diversas formas: no tempo, no espaço, entre classes sociais etc. A variação linguística é com frequência ilustrada com exemplos de diferenças entre usos da Língua Portuguesa no início do século XX e no presente (variação no tempo ou histórica) ou por um falante do Sul e um falante do Sudeste (variação no espaço ou geográfica), por exemplo. Quando eu cursei o ensino médio, no final dos anos 90, o tratamento da variação linguística no livro didático de português utilizado em minha escola limitava-se a exemplos como esses. Todavia, a variação linguística é muito mais que isso, pois a língua varia também numa mesma época e num mesmo espaço (variação social), o que leva à existência concomitante da "norma padrão" (ou "norma culta") e da "variante não padrão" da língua. A língua não padrão é, por assim dizer, mais natural, menos controlada, enquanto a língua padrão é mais próxima da escrita, mais controlada. Para que haja possibilidade de que a questão toda seja discutida, é necessário que se compreenda primeiramente que, entre duas variantes ou mais, não existe uma que seja melhor que a outra, ou seja, não deve haver juízo de valor quando se trata de variação linguística.
Como esse procedimento se verifica no uso cotidiano da língua?Cito um dos infinitos exemplos possíveis de diferenças entre língua padrão e não padrão: tanto a expressão "os meninos" quanto a expressão "os menino" são legítimas. No primeiro modo de falar, próprio da norma padrão, a marca de plural (letra "s") está presente duas vezes, enquanto no segundo modo, pertencente à variante não padrão, a marca de plural aparece uma vez, provavelmente pelo caráter econômico da língua (em inglês, por exemplo, numa expressão semelhante, a marca de plural não aparece no artigo definido, mas somente no substantivo: the boys). Portanto, no exemplo dado, trata-se de duas variantes com regras diferentes. Os estudos em linguística mostram que na língua não padrão as regras gramaticais existem e que todo um grupo de pessoas as utiliza. A escolha de uma dessas duas formas como padrão é mais ou menos arbitrária, no sentido de que não há uma legitimidade inerente a essa forma, de que uma não é naturalmente "melhor" que a outra. 
E de que modo é feita essa escolha?A atribuição de maior valor à variedade padrão em detrimento da variedade não padrão é um questão, sobretudo, de poder: uma das variantes foi escolhida como padrão por um grupo de pessoas de classe social mais alta. Daí conclui-se que o termo "erro de português" não é adequado para se referir a ocorrências ou formas da língua não padrão, uma vez que ele não é coerente com o conceito de variação linguística. Outro ponto fundamental é que as variantes não existem de maneira completamente separada. Pessoas bastante escolarizadas e/ou de classes sociais mais altas também utilizam a língua não padrão em diversos momentos de sua vida cotidiana. E a própria norma padrão não é homogênea e muito menos imutável. Perceber certa arbitrariedade da língua ("é de um jeito, mas poderia ser de outro") é fundamental para se compreender a variação linguística e a ideia de que de que não há formas superiores ou melhores.
Qual é a pertinência do ensino da Língua Portuguesa sob essa perspectiva de variação linguística?O trabalho com a variação linguística na aula de Língua Portuguesa é importante, sobretudo, para que o aluno não se sinta desvalorizado, para que não pense que sua forma de falar é inferior. Além disso, a comparação das formas padrão e não padrão favorece a aprendizagem da norma culta, pois o aluno passa a ter uma clareza maior das diferenças. Não se trata de ensinar na aula a variedade não padrão (mesmo porque o aluno já sabe), mas de refletir sobre essa variedade – seu uso e seus espaços culturais e sociais, que uma visão histórica revela – para, a partir daí, introduzir a norma culta. Muitas pessoas têm debochado dessa ideia na mídia, talvez por desconhecerem a seriedade do trabalho, nessa direção, de linguistas e educadores, que se preocupam em difundir um ensino de língua materna que mostra outras realidades de uso da língua diferentes da língua padrão, por grupos sociais que têm uma história e dos quais todos fazemos parte, direta ou indiretamente.
Muitos pensam que trabalhar com a variação linguística em sala de aula significa ensinar a "falar errado". Na sua avaliação, por que o senso comum faz essa associação? Creio que a confusão entre trabalhar com a variedade não padrão em sala de aula e "ensinar português errado" seja causada pelo desconhecimento da existência concreta da variação linguística. Quem nunca teve contato com esse conceito e suas implicações não tem obrigação de saber, por exemplo, todos esses pontos que mencionei. Por isso, considero essa "polêmica" uma ótima oportunidade para que esse assunto tão importante seja esclarecido e debatido pela sociedade como um todo. O professor Rajagopalan, da Unicamp (Kanavillil Rajagopalan, professor titular na área de Semântica e Pragmática das Línguas Naturais da Universidade Estadual de Campinas/Unicamp N.R.), discute em seu livro "Por uma linguística mais crítica", a necessidade de que os linguistas tenham um diálogo mais amplo e constante com a sociedade, para que o saber construído na academia sobre a língua não fique restrito aos muros das universidades, surgindo de forma até autoritária somente em episódios como este. Ele escreveu isso na época do projeto de lei do deputado Aldo Rebelo sobre os estrangeirismos, que foi uma questão talvez tão polêmica quanto essa do livro didático. O desejo de banir os estrangeirismos também demonstra desconhecimento sobre o modo como as línguas se formam e se modificam. Essa nova polêmica mostra que esse diálogo tão necessário não tem se estabelecido.
A senhora acredita que parte da condenação feita por políticos e instituições ao livro didático "Por uma vida melhor" revela uma postura de "preconceito linguístico"?Somente o desconhecimento não explica a incapacidade de muitos profissionais da imprensa e políticos de ouvir os que os especialistas têm a dizer, além da atitude de desrespeito e deboche com esses especialistas e com a autora do capítulo do livro em questão. O tema da variação linguística é novo para a maioria das pessoas, mas não incompreensível. Uma pessoa que forma opinião e que fala para milhares ou milhões de pessoas tem obrigação de se informar antes de se fazer isso. No entanto, alguns jornalistas e políticos parecem ter como resolução não entender do que se trata o livro. O uso da voz de poder da mídia e de personalidades públicas para o ataque a ideias que nem são tão novas na linguística e nos livros didáticos, como bem apontou o professor Marcos Bagno, demonstra, para muito além do desconhecimento, um jogo de interesses políticos. Houve na mídia televisiva quem relacionasse o uso da variante não padrão à preguiça mental. É lamentável esse desserviço prestado por quem fala sobre um assunto tão importante sem se informar minimamente antes e, até mesmo, sem ter lido as tais páginas "polêmicas" do livro ou tentado entender seu objetivo.
Presidente da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada (Abrapa) e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dina Frutuoso argumenta que o simples fato de frases erradas constarem em um livro didático induz os alunos ao erro, uma vez que vivemos em uma sociedade que privilegia o sentido visual. A senhora concorda com esse posicionamento? Por quê?Esse risco não existe, pois as frases não foram inseridas no livro de maneira acidental ou irresponsável, ou com o intuito de ensinar errado, como a maior parte da mídia tem se dedicado a propagar, mas com um propósito muito claro e no contexto de uma proposta de trabalho de reflexão sobre a língua. O professor utilizará as frases para discutir a variação linguística e fazer uma comparação com a forma padrão. Além disso, não se trata de frases erradas, como procurei esclarecer acima, e sim de construções da língua não padrão. A ideia é utilizar as formas não padrão da língua para reflexão e posterior trabalho com a língua padrão.
A senhora conhece algum estudo que comprove a pertinência e melhoria do rendimento dos estudantes quando a variação linguística é trabalhada na aula de Língua Portuguesa? Quais? O que é comprovado é que, apesar de a aula tradicional que trabalha com gramática normativa pura ainda ser a prática pedagógica dominante, as taxas de insucesso no ensino de língua materna são imensas. Ouvimos quase que diariamente notícias sobre o analfabetismo funcional e a dificuldade com a linguagem escrita. Há os pesquisadores que procuram lidar com essa realidade e há os conservadores resolutos, como em toda área do conhecimento. Em universidades do país inteiro há profissionais pesquisando saídas para o insucesso, e o trabalho com a variação linguística em sala de aula é parte desse contexto. Sempre haverá os aprendizes que terão sucesso mesmo nas aulas tradicionais, e muitos de nós somos exemplos disso, mas os pesquisadores estão preocupados com aqueles que não fazem parte desse grupo e que são a maioria. A bibliografia a esse respeito é vasta e tanto livros quanto teses têm sido publicados a esse respeito. Além disso, é importante salientar que "norma culta" não é sinônimo de "Língua Portuguesa". A norma culta é uma das facetas da Língua Portuguesa. Não se pode reduzir a língua à norma culta e não se pode reduzir a aula de Português ao ensino da norma culta. A aula de Português é primeiramente o lugar no qual se promovem as competências leitoras e escritoras e no qual se estimula o espírito crítico do aluno. A introdução do tema da variação linguística em sala de aula de Língua Portuguesa é um esforço de permitir ao aluno ampliar o seu conhecimento acerca de sua língua materna, de possibilitar um entendimento de que língua não se faz em laboratório e de que a língua é a expressão do homem em seu contexto de existência. Que os livros didáticos e que os professores de língua materna tragam isso à baila é no mínimo uma ação democrática, para não dizer um direito do aluno. Promover a reflexão dos alunos em torno do fato de que seus familiares, seus vizinhos, seus colegas de escola e eles próprios falam desta ou daquela maneira por uma razão histórica, e não por serem "burros", favorece o combate ao preconceito linguístico e, ao mesmo tempo, funciona como uma ponte para o ensino da norma culta, à medida que proporciona a contextualização para esse ensino.
O que ainda falta ser discutido com relação a toda essa polêmica criada em torno do livro didático "Por uma vida melhor"?Tanto já foi dito em tantos veículos que é difícil discernir o que "falta" ser dito. No entanto, há alguns pontos que podem ser destacados. Parece-me que um dos trechos mais condenados do capítulo em questão foi aquele em que a autora diz que o aluno "pode" falar utilizando a forma não padrão da língua. Ora, o uso da forma não padrão exemplificada no livro é uma possibilidade da nossa língua. Não só podemos falar, como falamos diariamente, sendo grandes conhecedores da norma culta ou não, simplesmente porque é a forma mais natural de se falar. O que não significa que não se deve ensinar a forma padrão. Ao contrário, a escola tem obrigação de dar acesso a ela. Mas a zombaria que foi feita em torno disso e do verbo "poder" utilizado pela autora mostra o conservadorismo que se tem revelado na sociedade e na mídia sobre os mais diversos assuntos. É mais fácil condenar e zombar do que tentar compreender e refletir. É importante ressaltar que nem mesmo cada variedade é homogênea e que, portanto, a chamada norma culta também apresenta diferenças, por exemplo, em sua manifestação escrita e falada, o que está ligado à questão da arbitrariedade das regras linguísticas sobre a qual falei acima. E o uso da língua não padrão não prejudica a aprendizagem e o uso da norma culta, o que se pode constatar observando os usuários mais habilidosos desta variedade, que em diversas situações cotidianas utilizam a variedade não padrão, por uma questão de adequação do uso da linguagem às diversas situações de interação social. Trazer a questão da variação linguística para a aula de Português não equivale a negar a aprendizagem da língua ao aluno ou a deixá-lo apenas com o que ele já sabe. Quem se propõe a procurar compreender a proposta de trabalho que isso representa percebe que é exatamente o oposto disso - e que não há a intenção de negar ao aluno o acesso à norma culta.
E quais lições se pode colher após todas essas discussões?Observar a celeuma que se criou aponta mais um objetivo para o trabalho em sala de aula com a variação linguística: o de que uma questão tão importante e que diz respeito a todo brasileiro não fique restrita aos acadêmicos. Se esses jornalistas e políticos todos tivessem algum dia ouvido falar em variação linguística em sua aula de português, haveria uma possibilidade maior de que não estivessem reproduzindo certos absurdos sobre o tema. Já dos professores de português espera-se que tenham conhecimento sobre a questão e que não propaguem as mesmas ideias errôneas a respeito dela. Essas questões fazem ou deveriam fazer parte da formação de qualquer professor de língua.


Sugestões 
Livros sobre o trabalho com a variedade não padrão no ensino de Língua Portuguesa:
- Possenti, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola.Campinas: Mercado de Letras, 1996.
- Castilho, Ataliba de. A língua falada no ensino de português. São Paulo: Contexto, 2000.
- Fávero, Leonor Lopes et al. Oralidade e escrita. Perspectivas para o ensino de língua materna. São Paulo: Contexto, 1999.
- Bortoni-Ricardo, Stella Maris. Nós chegamu na escola e agora? – Sociolinguística e educação. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.
- Bortoni-Ricardo, Stella Maris. Educação em língua materna. A sociolinguística em sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial,2004.
- Ilari, Rodolfo. A Linguística no ensino da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1985.
- Marcuschi, Luiz Antonio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2007.
- Bezerra, Maria Auxiliadora. O livro didático de Português: múltiplos olhares. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

- Santos, Irenilde Pereira. A variação linguística e a política de ensino/domínio da língua materna. São Paulo. Secretaria da Educação. Coodenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, 1991, p. 7 a 16.
Sugestão de vídeos:
- Professor José Luiz Fiorin, da USP:
http://www.youtube.com/watch?v=o7OlNhxLrOg
- Entrevista com o Prof. Ataliba de Castilho, da USP:
http://www.youtube.com/watch?v=mTLsjLvv80w


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Um comentário:

  1. Núbia,
    Parabéns mais uma vez pela matéria e pelo blog. Espero poder sempre trocar boas ideias com vc.
    Bjs
    Fatima Santo s

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